terça-feira, 21 de dezembro de 2010

«Antologia»

ANTOLOGIA - Revista semestral de contos
Uma iniciativa dos amigos
Gonçalo Mira, Nuno Fonseca e Emanuel Amorim
Mais informações aqui: http://www.revistaantologia.com/

sábado, 11 de dezembro de 2010

«Pormenores de uma relação amorosa»

«Encontrados na tradução - Pormenores de uma relação amorosa: o tradutor e a obra de um autor», de Gonçalo Mira, in «Ípsilon»/Público, de 3-XII-2010, já está on-line. Recomendamos a sua leitura e ficamos à espera de comentários.

Gonçalo Mira e dois dos entrevistados, Artur Guerra e Cristina Rodriguez, são membros fundadores do Encontro Livreiro.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Doutoramento «Honoris Causa» para um Livreiro, o nosso «Livreiro Velho»

Quando todos pensávamos que a Cerimónia já tinha acabado, a Natureza, no preciso momento em que o homenageado saía do edifício da Câmara Municipal de Setúbal, brindou-o com uma salva de potentes trovões e uma chuvada torrencial.

Com início pelas 15:00 horas de hoje, 9 de Dezembro de 2010, terminou já ao princípio da noite a Cerimónia de entrega das Insígnias de Doutoramento Honoris Causa, pela UNISETI - Universidade Sénior de Setúbal, ao LIVREIRO Manuel Pereira Medeiros, apadrinhado pelo Prof. Doutor Onésimo Teotónio de Almeida. Proferiu a Oração de Sapiência o Prof. Doutor Viriato Soromenho Marques.

A sessão, que teve lugar num Salão Nobre aquecido pela Amizade de todos os que, da cidade ou de outras paragens, puderam estar presentes, não terminou sem que o Livreiro, agora Doutor Honoris Causa, nos brindasse com um belíssimo e profundo texto que, lido numa voz que se foi afirmando e fortalecendo ao longo de uma leitura esforçada e muito sentida, a todos tocou, fez pensar e suster respirações.

Parabéns, Manuel Medeiros!

Luís Guerra

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Gentes do livro

«Se estes elementos são importantes como factores activos no relacionamento do possível leitor com o livro, mais importantes, como se calcula, são aqueles que fazem a livraria, os livreiros, quer sejam proprietários-trabalhadores ou empregados. É por eles que passa em grande parte a história do livro, são eles que fazem a história da livraria.»

Livrarias & Livreiros, Carlos Porto
[citação encontrada no blogue da Trama e que aqui partilhamos]

domingo, 21 de novembro de 2010

Novo Encontro, em Setúbal, das «Gentes do Livro» - Convite

(clicar para aumentar a imagem)

Porque se trata de um acontecimento que interessa e diz respeito a todos os que trabalham no mundo do livro, se bem que trate essencialmente de edição e editores, aqui deixamos este convite, ao mesmo tempo que sugerimos a leitura do texto que Manuel Medeiros, o «Livreiro Velho», acaba de publicar em Chapéu e Bengala, onde lança o apelo: «Gostava mesmo que, na tarde do sábado, dia 27 do mês corrente, às 16h, dia do lançamento na Culsete, o ambiente aqui na livraria fosse de encontro entre algumas das pessoas que a sério e a fundo se dedicam ao livro. Um encontro de «Gentes do Livro».

Nuno Medeiros, autor do livro, faz parte do grupo de fundadores do Encontro Livreiro que, desde o ano passado, se realiza em Setúbal, no último domingo de Março de cada ano. Parabéns, Nuno, pela obra, pelo prémio, pelo empenho, pelo exemplo, pela amizade.

Venha daí e traga outro(s) amigo(s) também! Nós, lá estaremos. Sim, porque ISTO NÃO FICA ASSIM!

sábado, 9 de outubro de 2010

Última Época Escolar que faz o livreiro velho nesta livraria onde não sabe quando deixará de poder e querer trabalhar, por mais vagarosamente que seja

MANUAIS ESCOLARES: HOJE? PORQUÊ?

Pois!
Porquê?
Simplesmente por ser 1 de Outubro.
Durante quantos anos as escolas portuguesas abriram a 1 e 7 de Outubro, ano após ano sempre nesses dias, conforme o grau de ensino?

Setúbal, 1970, 1 de Outubro. 40 anos. Setúbal. 1 de Outubro de 2010. Primeira Época Escolar que faz o livreiro velho nesta livraria em que ainda trabalha. Era a Galeria Culdex. Última Época Escolar que faz o livreiro velho nesta livraria onde não sabe quando deixará de poder e querer trabalhar, por mais vagarosamente que seja.

E acima de todos aquele 1 de Outubro de 1973. A Culsete reabre nesse dia a livraria que entretanto uma gestão impossível obrigara a encerrar uns meses antes.
Quem sabe o que significa de esforço, resistência e paciência prestar este serviço a uma cidade e região vasta e diversificada como Setúbal, entende que o livreiro velho não se importe que o critiquem por trazer para aqui esta emoção de estar dizendo a si próprio: «o meu último 1 de Outubro dedicado ao trabalho dos manuais escolares das crianças e adolescentes de Setúbal…».

São muitas as histórias que me contam meninas e meninos de ontem que são os pais das meninas e meninos de hoje. São muitas! Nada de admirar, é por ser realmente velho. Um dia acaba por se compreender que ser velho é ir dando por findas muitas das tarefas em que nos investimos.

Fiz, pessoalmente, quarenta aberturas de ano lectivo em Setúbal. Foi uma teima comigo: «mais este ano, para ficar nos quarenta!» Se calhar, teria sido melhor… Veremos… Nesta fase da vida é bom teimar, mas não é sempre nem em tudo.

Hoje é esta emoção, apenas. Ficarei por aqui? Espero que não. Os manuais escolares, em meu entender, devem dar referências culturais fortes e firmes para toda a vida. São por isso um tema importante. Em meu entender…

L. V.
[Manuel Medeiros - Livraria Culsete, Setúbal]
Texto originalmente publicado em «Chapéu e Bengala». Sublinhados nossos.

E, aproveitando a visita ao «Chapéu e Bengala», sugerimos a leitura do texto «MANUAIS ESCOLARES: ao redor da fogueira», de 4 de Setembro de 2010.

domingo, 8 de agosto de 2010

«Atabernar as livrarias»

«Quem faz com que uma livraria seja uma verdadeira livraria e não uma simples mercearia de livros, uma mercearia onde é natural que os livros se vendam "com a mesma pseudo-eficiência" com que se devem vender "detergentes ou margarinas"? O livreiro? O seu público? Se calhar os dois… Ou não?»

Quem pergunta é o Livreiro Velho. Pode ler o texto completo no «Chapéu e Bengala».

sábado, 7 de agosto de 2010

«De se tirar o chapéu»

Sines, nesta época do ano, é ponto de passagem de alguns e de destino de outros. O mar, praia, sol e outras coisas que os forasteiros cá descobrem. A livraria fica perto do parque de campismo que, por razões que desconheço, este verão apenas esteve aberto durante o Festival Músicas do Mundo. De qualquer forma, sendo uma zona comercial, as pessoas passeiam-se, principalmente durante a manhã, com carrinhos de bebé, sem carrinhos de bebé, em pequenos grupos, aos pares, solitários, mãos atrás das costas, desviando-se dos montes que os cães deixam nos passeios e das paredes mijadas até à altura do alçar da perna, vendo as montras ou, mesmo, não vendo nada. É de manhã também que, de vez em quando, vou até à porta e espreito o mar, à esquerda, lá ao fundo, um ou outro navio a chegar conduzido pelos potentes rebocadores; imaginando os corpos ao sol estendidos na areia. Cumprimento com um aceno pessoas que me cumprimentam de dentro de carros que passam. Normalmente não consigo vislumbrar quem lá vai mas a educação nunca fez mal a ninguém e eu até gosto de ser cumprimentado. Bons dias de um ou outro idoso que só conheço do seu passeio matinal, saído do lar ao virar da esquina e para onde regressa depois da volta ao quarteirão. Também retribuo o aceno de alguns pescadores que, do Bairro Marítimo, ali à direita, balde de plástico pendurado no braço, se dirigem para o porto de pesca ou de lá regressam depois de várias horas no mar. O interior da livraria está fresco. Para quem gosta de livros, as luzes apagadas ajudam ao ambiente propício para alguns momentos de descontracção. Há quem entre, dê a voltinha e saia. Há quem entre e fique mais um bocado, vendo as novidades nas mesas ou procurando surpresas nas prateleiras. Por vezes sou eu que tenho surpresas. Por vezes aparecem pessoas que gostam de falar de livros. Por vezes inicia-se um namoro sem consequências mas que é bom enquanto dura. Falamos de títulos e de autores, de histórias, contamo-las e ouvimo-las. Não tão raramente quanto isso, há quem pergunte como é vender livros em Sines. E dá? Vai dando, com dificuldades, os encargos são muito grandes… o costume. Mas estamos cá! Há pouco estava eu à porta a olhar para nada – apenas a descansar do teclado e das facturas. Da esquerda vêm surgindo pessoas. Um casal, calções e chinelos; uma senhora com saco da loja de roupas; três raparigas, uma delas com filmes de vídeo numa mão e o telemóvel na outra, digitando freneticamente. Um pouco atrás um homem alto, mais de setenta anos, roupa desportiva mas clássica, clara, óculos escuros acastanhados, boné bege na cabeça. Traje de passeio e passo de passeio. Detém-se na montra da livraria, observa os livros expostos. Para não incomodar afasto-me um pouco da porta. O senhor também se afasta da montra e dirige-se à entrada. Observo-o pelo canto do olho. Entra. Fico-lhe agradecido. Não só pelo facto de entrar. Entrar muita gente entra e é claro que é gratificante que isso aconteça. Mas, é que, no momento de entrar na livraria, este senhor tirou o chapéu!

Joaquim Gonçalves

Este texto, de se lhe tirar o chapéu, foi surripiado - sem qualquer autorização, mas com a certeza da compreensão de seu autor - do blogue da A das Artes, uma livraria, em Sines, que espera uma visita sua. Os sublinhados são nossos.

terça-feira, 15 de junho de 2010

ESCREVER NÃO É PARA MARIQUINHAS

Nós, os portugueses, somos todos divas. Do café da esquina ao estádio de futebol ao hemiciclo de S. Bento, todos nos devem e ninguém nos paga. Nos outros sítios também será assim. Que o digam os de lá (às vezes dizem-no e é bom sabê-lo). Mas por aqui, algo que parece sempre omnipresente é a noção de que todos temos razão, só os outros é que não, nunca!
Este texto nasceu do verificar que não podemos olhar constantemente para o nosso umbigo. De ver imensos jovens e outros a protestar inanemente: Não sei ler? Não sei escrever? Mas quem é que me ensina? Dou erros? Mas não é natural que os dê? Já ninguém fala do meu livro? Não ganhei um concurso? Não me andarão a prejudicar? E não deviam ter feito isto e aquilo por mim? Não deverão? Não gostaram do meu conto? Do meu livro? Mas quem são vocês? Etc. Etc.
Qualquer editor, ou mesmo qualquer pessoa ligada ao mundo das letras, está habituado a ver e ouvir disto. O fenómeno é mais típico em novos escritores, (o que não é o mesmo que dizer de jovens pessoas: pode-se ser um jovem escritor, profissional e maduro, ou um novato com qualquer idade) mas não lhes é exclusivo. Normalmente enferma de se pensar que uma crítica ou uma rejeição é sempre algo de negativo ou mesmo soez. Não é. Mas o fenómeno da intemperada reacção negativa à crítica e ao não reconhecimento que se pensa devido, isso já é algo de chato e recorrente. Principalmente porque improdutivo e não leva a lado algum. A mais das vezes leva a quezílias idiotas que mais valeria não terem existido. Recordo um professor de jornalismo na escola que nos obrigava a apresentar trabalhos e a elaborar textos, que depois eram criticados e avaliados por todos, sem que nós os autores pudéssemos emitir um pio de resposta ou defesa – foi uma grande lição. Muitas vezes é o que nos acontece pela vida fora. Quando nos candidatamos a um emprego ou a um prémio; quando preenchemos um formulário ou respondemos a uma pergunta para a televisão; até mesmo em literatura, que é o que nos interessa por aqui. Portanto, é disso que falarei.
Desde pelo menos o sumérios que há malta a morrer que nem tordos por causa da escrita. Ou porque são pré-personagens das suas próprias histórias, porque penam durante anos infindos até conseguir escrever decentemente no seu idioma, porque se pensa haver excesso de ideias ou falta delas, ou porque se esbarra nesse grande nivelador que é o ter de aguentar a vidinha de todos os dias. Mas Gilgamesh, do alto das muralhas de Uruk, viu como era horrível os homens morrerem no olvido, a vacuidade de toda a vidinha, até da sua, e fez uma jura: lançar-se na maior das aventuras, na busca pela imortalidade. Para que no fim, essa história e o seu nome fossem inscritos numa estela, para todo o sempre. Gilgamesh fez-se à estrada, passou por várias dificuldades, conheceu o segredo da imortalidade, perdeu-o e voltou a Uruk de braços vazios. Mas há outra forma de vencer a morte, uma que é tipicamente humana, e que nunca dependeu dos deuses, e essa alcançou-a.
Ser escritor é e será sempre assim: não é fácil. Não é suposto sê-lo. Se fosse, não teríamos literatura: teríamos cadernetas e cromos. Isso sim é fácil: é só ter uns trocos no bolso e ir à loja; mas para se…
…ser escritor, não é nada fácil. Primeira das primeiríssimas coisas, é preciso saber decentemente sobre o próprio idioma, falado e escrito, de forma a que nos façamos entender, a que percebamos o que queremos dizer, a que ninguém possa apontar erros grosseiros, ninguém possa ter vontade de dizer “Para que vou eu continuar a ler isto se há tanta gente que sabe escrever e esta pessoa não?”. Esse ninguém, não são primordialmente os críticos, nem sequer os bem-pensantes: são os leitores. Porque os leitores não são os nossos pais, os nossos amigos, os nossos inimigos ou sequer os coitados a quem escolhemos mostrar as nossas obras; os leitores são os alienígenas a quem temos de estender a mão e convencer que somos amigos – mesmo que no fim nos queiram apedrejar. Os leitores são toda a gente, desde a que gosta de nós à que nos odeia, a que nos é indiferente e nós para eles; são a empregada a dias e o presidente da nação, o crítico e o editor, o transeunte e o caga-postas, o gajo do café e a miúda do lado, a mãe do facínora e o bêbado que é filho dela, a arquitecta e o enfermeiro. É para ser lido que um escritor existe e se não sabemos escrever com um mínimo de agradabilidade ou de indefinível qualia, não há leitor que connosco persista ou que connosco insista. Para um leitor, o bom escritor acaba por ser aquele para quem…
…ser escritor não é fácil. E também é competitivo como o caraças. Para cada aprendiz de escritor que dá um erro, há vários escritores que não o dão e interessantes livros aos milhares nas livrarias. Porque quererá um leitor perder tempo? E um editor então? Fará isso sentido? Escrever bem parece fácil? Só parecer mesmo. Aprender um idioma decentemente, leva anos e muita bordoada. É desagradável. Faz-nos perder a paciência e a tramontana. A vida vai-se metendo no meio. E pior, a partir de certa altura, quanto mais aprendemos mais nos parece que nada sabemos, coisa que nos exaspera…até que aprendemos um pouco mais e percebemos ser esse o seu encanto. E sim, porque…
…ser escritor não é fácil. Principalmente, não é fácil perceber que dá muito trabalho. Que não é questão de “ter imaginação” (que por aí abunda aos pontapés), de fazer umas “história fixes” (quem quer ser medíocre?), ou de “ter jeitinho para a escrita” (o que não falta é gente com jeitinho; com jeito é que começa a ser difícil; e que sejam escritores sérios então pffff, não são muitos, não senhora, não em comparação com o que fica estirado no chão das fatalidades literárias). Nada disso basta ou é sequer fundamental. O essencial é dado pelo tempo e pela perseverança, é o sangue, suor e lágrimas. É obter experiência e saber usá-la. Batalhar muito com o texto e o uso que dele se quer fazer, o uso que se lhe quer dar. Porque…
…ser escritor não é nada fácil. A história está cheia de escritores que se suicidam, que enlouquecem, que morrem pobres, que morrem odiados e pior, que acabam desconhecidos. Mesmo os que conhecem o sucesso, a maioria acaba mal. Porque será? Porque…
…ser escritor não é nada fácil. É passar a vida a ter editores que não editam, revisores que não revêem, tradutores que traem, leitores que não lêem e críticos que têm as suas próprias agendas. É ir às livrarias e encontrar a sua obra ausente ou metida num canto escuso ou com o mesmo número de exemplares durante meses a fio retrocedendo nas estantes até ao armazém ou à guilhotinagem final. É ficar à espera das boas críticas que não virão, das resenhas que só com sorte, das entrevistas que não aparecem e da publicidade inexistente. Perante tudo isto, é mais do que óbvio que…
…ser escritor não é fácil.
Ser escritor não é para mariquinhas.
Se querem fácil, desistam. Dediquem-se a outras pescas. Poupam trabalhos e chatices, árvores ao ambiente, e provavelmente serão bem mais felizes e realizados. Não terão de se levantar a meio da noite para ir escrever 3 a 5 horas ganhas ao sono, pé ante pé, de modo a não acordar os filhos que sonham como os justos na cama do quarto ao lado. Não terão de se preocupar em trabalhar o dia inteiro em algo que não gostam, para que possam ter meia-hora de escrita no café, antes de terem de correr a ir ajudar na lida da casa. Não terão de aguentar os humores dos maridos e das esposas que não vos compreendem, ou que quando sim, às vezes também têm os seus problemas. Não terão de se perguntar quando é que virá o cheque de tostões prometido meses e meses atrás. Não terão de aturar as personalidades de todos os que não escrevem, ou dos que julgam que o fazem (ou pior ainda, dos que julgam que sabem), e de ainda ter de lhes sorrir, ter de sorrir até ao nosso espelho perante a nossa imagem em farrapos. Não terão de escrever se estiverem doentes, infelizes, maltratados, sorumbáticos, nostálgicos, tristes ou depressivos. Não terão de olhar para o que escrevem e constantemente achar que é uma porcaria, e pior, saber que haverá sempre quem o achará. Não terão de aturar que as pessoas vos digam o que pensam, mesmo que não saibam quem são ou o que fazem, que digam coisas que vocês não gostam de ouvir mesmo que sejam verdade ou pior mesmo que sejam mentira. Não terão de viver sem palmadinhas nas costas, ou com elas e à espera de quando vão levar no toutiço pumbapumbapumba pela frente ou por trás. Não terão de ser confrontados com o que fazem mal, errado ou incorrecto, nem que vos ponham a dizer aquilo que não disseram, a escrever o que não escreveram, a inferir o que não quiseram significar. Não terão de ser avaliados pelos vossos pares, pelos editores, pelos críticos, pelos leitores, e até pelo Zé do boné e pelo canário da Dona Francisca.
Porque ser escritor é escrever sozinho e ser-se avaliado por toda a gente pelo modo como o fazemos. E aguentar. O que se publica não tem bilhete de ida e volta. A opinião dos outros não depende da nossa. É livre, terrível e maravilhosa. Se custa? Custa. É agradável? Poucas vezes. É fácil? Muito raro. É preciso ter força de vontade? É. Muitas vezes parece impossível de continuar? Garantidamente. Portanto, para quê armarem-se em divas? Protesta-se do quê? dos outros darem a opinião que não queremos? Para quê? Mais importante, porquê?
A quem se perguntar como é então possível que alguém queira ser escritor, será tudo mau? Nem pensar nisso! É a melhor coisa do mundo. A vocação perfeita.
Mas não é disso que estou a falar. As partes boas terão de ficar para outro dia. É que, desculpem qualquer coisinha, mas para chegar aí é difícil. Lá isso é. Compõe a maior parte do caminho. E não há volta a dar-lhe. Nem pedindo mãozinhas, cunhas, bolinhos, compreensõezinhas, palavras amigas, explicações, apontamentos, palmadinhas ou subornos. Nem fazendo clubes ou blogues ou fóruns selectos, fechados e cegos. Nem nos fazendo de mais nem de menos do que somos. Nem exibindo arrogâncias deslocadas ou esgrimindo inanidades indefensáveis. Nem fabricando ou fomentando ou gozando questões e problemas e quezílias. Nem reduzindo os problemas a questões geracionais ou paranormais. Há por aí uns quantos milénios de gente que enfrentou as feras da vida, as contrariedades, as dificuldades. Muitos deles foram escritores. Todos perceberam que não é fácil. Ora isso é algo a respeitar sempre. Todos tiveram de aprender a escrever, a esmagadora maioria sem enciclopédias, wikipédias, e mãozinhas de outrem na caneta. Todos com menos bons exemplos que no presente. Todos tiveram de se dar com os seus pares, todos tiveram de conviver e aprender. E para todos não foi fácil.
Que fazer então? Ora, escrever parece-me bem. E se não o fizerem, pois bem, LEIAM.

n.fonseca

segunda-feira, 31 de maio de 2010

DEBATE LIVREIRO . 2 - «PROPORÇÃO INVERSA»

Mercadorias entradas e mercadorias saídas. É evidente ou não? Se o valor das mercadorias saídas é inferior ao das entradas e se se trata de uma situação recorrente e persistente, o caldo está derramado: é um ramo de comércio inviável. Tem mesmo que ser: ou acaba a «proporção inversa» ou é melhor, efectivamente, suspender o debate. É inútil discutir o inviável. Tornar viável o comércio livreiro, quando era fácil, não se quis nem se soube e não se fez. Foi-se aguentando. Claro que isto em referência às «LI» - Livrarias Independentes. Agora que é difícil, não há mais que aguentar: ou se faz ou já não faz falta. Ficarão, naturalmente, dois ou três «reliquianos» para contar as histórias ao Terramarique (Lisboa no ano 3.000, Cândido de Figueiredo, Frenesi), mas mais do que isso não é expectável. Isto é, ou os livreiros se respeitam e são respeitados por serem indispensáveis à dignificação do livro e aos bons níveis de leitura do país ou os editores e os leitores têm o oceano das grandes superfícies, das cadeias de livrarias de grupo (grupos económico-financeiros) e tudo o que é canto onde se possam expor livros. E… acabou-se!

I
Duas vezes por ano o comércio do livro é assunto: por ocasião da Feira do Livro de Lisboa (do Porto também, mas nem tanto assim) e na abertura do Ano Lectivo das Escolas Básicas e Secundários. Mas com que nível? Com que conhecimento de causa? Com que motivações? Barulhinhos!
A Feira do Livro de Lisboa de 2010, a prolongada, deu para protesto, mas já passou. Para o ano, mais do mesmo e só então voltar a levantar a questão das Livrarias Independentes?
Sempre achei uma graça a esta incapacidade que temos de discutir em terra as condições da navegação. Com a Feira ou a Época Escolar a decorrerem pode-se aproveitar para atirar uns foguetes, mas mais nada. É nos entretantos que se podem estudar, analisar, discutir e projectar novos modos e meios de navegar.
Houve cerca de cinquenta anos para preparar a sociedade para o fim do emprego anunciado por Anna Arendt (A Condição Humana). O Plano Nacional de Leitura de 2006 era, em 1986, a iniciativa evidente a lançar. - E o Programa de Bibliotecas? -Teria sido um seu excelente apêndice. Etc.

II
A última oportunidade que teve a APEL de orientar o comércio livreiro como podia, devia e era desejável, de modo a manter a representatividade das Livrarias Independentes que tinha, foi nos anos oitenta. Na altura do aparecimento dos hipermercados e do seu interesse no produto livro. A história do assunto pode fazer-se. A APEL e a Secretaria de Estado da Cultura, depois Ministério da Cultura, jogaram para perdermos.
Os sócios-livreiros eram maioria na associação, mas nunca conseguiram sê-lo nas orientações decididas e praticadas. Perderam sempre. Vitoriosas? A Secretaria de Estado do Comércio e as grandes superfícies comerciais. E os editores? Se quisermos ver isso bem, talvez se percebam algumas contradições.
Dir-se-á: «Mas então? Não foi uma vitória a publicação da Lei do Preço Fixo?».
Resposta: Estudem o assunto. Não se limitem a ter umas impressões e a dizer umas bocas.
Quantos sócios-livreiros houve na APEL? Quantos há actualmente?
E já não há retorno possível, crê-se.
O que é incrível é que nem os livreiros se queiram na APEL nem também se queiram numa sua autónoma associação. Olhem para o lado. Quantos sectores profissionais acreditam tão pouco na vantagem individual da força colectiva?

III
Faz sentido pensar que as Livrarias Independentes fazem falta ao bom futuro da leitura? Continuarão a ser viáveis? Desenvolvimento ou atrofiamento?
Que livrarias? E que novos livreiros se esperam?
Olhar para trás? Cuidado! Agora?
O que é bom é olhar para quem, felizmente, se levanta. Dá muito gosto aos velhos ver gente nova de pé!


M. Medeiros

sábado, 29 de maio de 2010

«A PROPÓSITO DE UMA FEIRA QUE DUROU QUASE UM MÊS...»

No Expresso de hoje, 29 de Maio de 2010, António Guerreiro escreve o artigo «Sobre o arraial das livrarias e a Feira do Livro» («Actual», p. 34), que aconselhamos a ler e a comentar aqui, de onde respigamos «A propósito de uma feira que durou quase um mês, ninguém parece interessado em perguntar se as barracas montadas por tanto tempo não afastam, mais do que seria desejável, as pessoas das livrarias (...)».

E o debate continua...

Isto não fica assim!

CRÓNICA RESUMIDA DE UMA CONFISSÃO

Eu, livro impresso em papel, a exemplo do velho Galileu, venho reconhecer os meus erros em final de vida e pedir perdão por todos os crimes de que sou acusado.
É verdade que, durante séculos, contribuí para a destruição de muitas florestas à força de querer ensinar o mundo a ler.
Em muitas latitudes, paguei caro por isso, ao ser perseguido, censurado, queimado e odiado por quem me temia.
Descobri, então, que a ignorância, além de ser estúpida, quer-se resistente.
Também é verdade que, à minha sombra, muitos abusaram da passividade a que me sujeitei, gastando toneladas de folhas em branco sem nada para dizer.
Acontece ser o desperdício um erro da democracia.
Sei, também, de sobra que neste planeta a deitar por fora, já se encara o espaço como um problema.
Quer nos armazéns das grandes editoras, quer nas lojas, reais ou virtuais, quer ainda nos lares de milhões de leitores, cresce a insinuação de que estou a mais.
Não é segredo para ninguém que o papel acumula-se, atrai os bichinhos, esgota prateleiras, ganha uma cor térrea e o cheiro a bafio de uma longa idade.
Há, também, quem diga que tremi e tremo com a chegada das novas tecnologias. Mais limpas e rápidas na comunicação, encurtam as distâncias entre os pólos da Terra, prometem robôs que venham a falar como seres humanos.
Verdade ou mentira, só de pensar que o livro digital já vem a caminho, quebra-me a vontade de ser D. Quixote, velha personagem a que tanta vez dei corpo.
Meter vinte livros numa pequena caixa é uma tentação mesmo para aqueles que não gostam de ler.
Mas sendo o progresso a arte de ir em frente, com os pés no chão, ainda há quem veja com olhos de gente que a minha permanência vai continuar, mesmo reduzida, no mercado da cultura e da comunicação.
Hábitos de leitura, estilo e tradição, a recordação de boas leituras, o toque do papel são muitas as razões de quem julga haver lugar para todos.
Assim aconteceu com a fotografia, o cinema e o teatro quando da chegada da madre televisão e, mais recentemente, com a Internet.
E, depois, quem sabe, ao fim de tantas voltas ao redor do sol, quantas vezes nós olhamos em frente e damos connosco a olhar para trás.
O vento, o mar e o sol, já por cá andavam antes do carvão, do petróleo, da electricidade e do nuclear entrarem ao serviço.
Agora lhes chamam energias renováveis e revelam-se úteis para a humanidade .
Assim sendo, eu, o livro em papel, embora admita que a minha viagem já esteja a entrar na última estação, ainda circulo à velocidade dos milhares de edições.
- Então que fazer? – perguntam os elementos da tribo do deitar abaixo como sempre fizeram em todas as situações.
Ora bem, senhores, mesmo que o vulcão da Islândia e outros parecidos cubram o céu de cinzas, é de boa prática que autores, editores, livreiros e leitores atentem na mudança com esta certeza.
Em papel ou em suporte digital o livro continuará a existir e a ser procurado por quem não desiste de viver com ele.
Com este argumento, talvez os juízes me reduzam a pena, a morte do livro não é para já.
Tenho a meu favor o muito que aprendi, enquanto esperava dias a fio, que alguém me tirasse de uma prateleiras.
É, pois, sobre a loja que passo a falar.
A loja, esse elo visível do circuito comercial que é o ponto de encontro entre o livro e o leitor, não deve nem pode ficar para trás.
Alguém afirmou que o caminho se faz, começando a andar.
Na expectativa de uma morte lenta, entre lapiseiras baratas made in China e cromos de futebolistas, é bom que os livreiros não baixem os braços e vejam os recursos com que podem contar na venda do livro, ainda em papel.
Caramba, olhem como os putos brincam com a informática, sobre o teclado do computador.
Organizar ficheiros de clientes certos é tratar de forma directa a comunicação.
Animar as lojas, enfeitar as montras, seguir na esteira das campanhas de publicidade dos mais poderosos, criar a notícia feita boca a boca, dar mais vida ao livro no ponto de venda, preparar a tempo os dias festivos, contactar autores, conhecer o produto que vos chega às mãos, falar sobre ele a quem lhe está perto, procurar parceiros… ufff… que cansaço, dá muito trabalho.
Mas também se sabe que ninguém faz milagres por mais forte que seja e cada tentativa é um sinal de vida.
Para morrer de joelhos, morra-se de pé.
Por estranho que pareça, eu, o livro em papel, acredito nisto e para os meus pecados peço a vossa absolvição.

Fernando Bento Gomes

terça-feira, 25 de maio de 2010

DEBATE LIVREIRO . 1 - BILHETE DE ENTRADA

«Bem sabes que o teu lugar já não é no campo. Se ainda queres participar no jogo, bate palmas ou então assobia. O teu lugar agora é na bancada.»
Entra-se com este bilhete. Gratuitamente.
Começado o jogo, na distracção do entusiasmo e do vício, o livreiro velho dá por si entre os jogadores. -E agora? -Vai de jogar!

I
Ao pretendermos chegar a qualquer coisa de prático, não podemos começar ab ovo. Por outro lado, ao não partirmos das origens dos fenómenos, a ignorância saltará imediatamente para o estatuto de variável a ter sempre em grande conta. Mas não temos remédio, há é que saber ser ignorante. Até porque os jogadores que aparecerem vestidos de «sabe-tudo» atrapalharão mais do que aqueles que tiverem consciência das nossas ignorâncias individuais e colectivas.
Em todo o caso, só uma transigência inadmissível nos levaria a prescindir, para o percurso, de umas bússolas, magneticamente a guiar-nos no bom rumo.

II
Os cérebros formatados pela cultura ocidental são de um transcendentalismo medonho! Progredir não devia ser respeitar a natureza das coisas, compreendendo as suas leis e em conformidade desenvolvendo o presente e criando um melhor futuro? Ora! Preferimos impor-lhe as nossas cerebralíssimas ideias, corrigindo e dominando a Natureza, com as nossas leis e os nossos poderes (-E os supostos interesses? -Acrescente-se, p.f.!). A admirável Natureza, para nós, no fundo, está toda errada. Se fossemos nós a criá-la, nada seria como é. Imagine-se a perfeição que seria!
Por exemplo: talvez ainda haja quem lance livros no mercado para serem lidos. Quem conhecer alguém que ainda faça isso, deve anunciá-lo, para que preservemos alguma lucidez ao querermos abordar os problemas do comércio livreiro.
A questão não tem que ver só com o mundo dos livros, é civilizacional. E já dissemos que não é possível começar ab ovo. Apesar de tudo, se o livro não é para ler, então para que é? Antigamente ainda era… (Bom, continuemos no sério!).

III
Alguém tem dúvidas de que o comércio livreiro português é responsável, numa percentagem elevadíssima, pelos baixos níveis de leitura do país?
É quase impossível avançar no debate antes que neste ponto concordem todos os que de algum modo nele quiserem participar, quer por estarem no comércio do livro por dentro, quer pelas suas responsabilidades culturais, sociais ou políticas, quer por simples curiosidade ou amor à causa da leitura. Porquê?
É tão verdade que sem leitores o comércio livreiro não se poderia ter desenvolvido, como que, sem desenvolver o comércio livreiro, a leitura não poderia de modo algum desenvolver-se.

IV
Editores e livreiros, mas também toda a gente que se considere «gente dos livros», por favor!... De diante da já partida cabeça de um velho profissional que nela está cansado de bater, tirem esta parede:
«Onde esteve e está o erro no sistema de comercialização do produto livro? Porque foi que o comércio livreiro não progrediu ao ritmo da alfabetização do país?»
Não lhe falem mais - Oh! Não! - nem do salazarismo, nem da pobreza das gentes. A percentagem inegável desses factores sempre a tomou em consideração, pois os conheceu por experiência própria desde a infância. Tem de haver outras razões. E ele também sabe há quantos anos Abril aconteceu. E viveu intensamente o que há para contar do comércio livreiro destes trinta e seis anos. Tem de haver razões e… responsáveis. «Únicos»? Isso é que era bom!

M. Medeiros

«CADA UM BALANÇA À SUA MANEIRA»

Ainda sobre a Feira do Livro de Lisboa (e não só), recomendamos a leitura de um texto de Joaquim Gonçalves publicado no blogue da livraria A das Artes, de Sines.

E quando passar por Sines, faça uma visita à livraria.
Caro Joaquim,

Não desistas. ISTO NÃO FICA ASSIM!

sábado, 22 de maio de 2010

PARABÉNS!

Fernando Bento Gomes, agora agraciado com a medalha de mérito da SPA, é um dos membros fundadores do Encontro Livreiro e estamos, por isso, muito felizes com esta merecida distinção.
Aqui fica o nosso abraço de parabéns ao escritor e amigo.

Encontro Livreiro

«FEIRA DO LIVRO: ESTICAR, ESTICAR»

Com a permissão da autora, a quem agradecemos, deixamos aqui, para leitura e comentários, o texto que publicou no «Cadeirão Voltaire» acerca do prolongamento da Feira do Livro de Lisboa.

Com a semana extra da Feira do Livro a chegar ao fim, começa a ser tempo de balanço. O das contas, há-de fazê-lo quem percebe de contas. Já o das opiniões que se manifestaram contra, e que pouco eco parecem ter tido na decisão da APEL, pode começar a ser feito. Sobre as razões que levaram a APEL a prolongar a Feira, não pode este blog dizer mais do que aquilo que foi divulgado nos comunicados e na comunicação social: a chuva de um certo fim de semana, a visita do Papa (que teria afastado gente da Feira, apesar de eu própria a ter visto cheia como poucas vezes durante a semana no dia em que o papamóvel cortava o trânsito em várias ruas da capital), o Benfica campeão… Quanto ao processo de decisão e à participação e sentido de voto dos associados da APEL, ainda espero resposta a um mail enviado ontem. Do ponto de vista dos frequentadores da Feira, não haverá muito a dizer. É lógico que quem gosta de subir e descer o Parque por entre as bancas de livros não se importa de poder fazê-lo durante mais uma semana, e por mim falo. Mas como dizia um editor, numa das noites da Feira, é preciso perceber que onde os livros se vendem é nas livrarias. Ou seja, aquilo que começou por ser um modo de escoar fundos e que entretanto se transformou numa livraria de novidades ao ar livre e com descontos acima do imaginável é um momento alto do ano editorial, mas não pode ser o ano editorial. Se a Feira esgotar a venda de livros durante muito tempo (afastando os leitores das livrarias durante o tempo que a antecede, durante o tempo que dura e durante o tempo que se segue, que é o que, naturalmente, costuma acontecer), o esforço de recuperação das livrarias pode não conseguir suportar a queda das vendas. Resultados: muitas livrarias não farão encomendas durante os meses que se seguem à Feira, outras não terão capacidade imediata para repor stocks, e algumas correrão, mesmo, o risco de fechar portas (e isto não é um exagero, ainda por cima em tempos de crise). E aquilo que pode ter sido muito vantajoso para as editoras, que venderam livros com descontos acima da média, ainda por cima durante mais uma semana relativamente ao que era habitual para este período (e aqui impõe-se a pergunta: a Lei do Preço Fixo permite vendas com descontos desta ordem durante tantos dias seguidos?), pode deixar de o ser quando quiserem colocar as novidades de Junho e Julho nas livrarias e só conseguirem fazê-lo nas grandes superfícies livreiras. Talvez isso não incomode a maioria das editoras, sobretudo as de grande dimensão. Certo é que muitas editoras se manifestaram contrárias ao prolongamento da Feira durante mais uma semana (entre elas a Assírio & Alvim e a Antígona, que eu tenha conhecimento directo), e que alguns livreiros (sócios da APEL? consultados perante a proposta de prolongamento?) o fizeram igualmente. Aqui ficam os links para os textos que fui apanhando sobre o tema (e onde importa ler igualmente os comentários), e que bem podiam ser, juntamente com mais opiniões, favoráveis ou contrárias, matéria para reflexão sobre o ‘mercado do livro’ que estamos a alimentar: Pó dos Livros, Culsete e Trama. É possível que outros se acrescentem entretanto.

(E já se acrescentam: o editor da Frenesi tem uma opinião diferente e publica-a aqui).

Sara Figueiredo Costa

O «PROTESTO LIVREIRO» GERADOR DE UM «DEBATE LIVREIRO»?

Tropeçar, só por si, não é cair. E talvez não seja preciso ir mais devagar para que o debate continue de pé. Basta que ninguém o queira ao nível da conhecida Escola de Debate Portuguesa, que ao longo da sua longa existência tanto ilustrou o país. Como se sabe! E não se sabe apenas pelo permanente tempo de antena que tem na actualidade essa nossa excelente Escola nas televisões. Uma cultura de debate típica muito antiga!
Há por aí quem queira ler as Farpas? Não aquela coisa, interessante em si, mas que enganou muita gente «culta». Os livreiros conhecem o caso.
Uma livraria que de há muito tempo tem, como «património próprio», os volumes da última edição, a da Clássica Editora, terá muito gosto em receber algum leitor interessado nessa valiosa herança que nos deixou Ramalho Ortigão. Se lhe parecer que se trata de um leitor a quem valha a pena chamar a atenção para outras edições «patrimoniais», o livreiro até lhe vai propor a leitura de Lisboa no ano 3.000. Honra ao editor que desencantou tal preciosidade!
Concluamos, pois, por agora.
Há debate aberto. Só por isso, para um livreiro que não quer sentir-se uma excepção, como é óbvio, terá valido a pena a Feira do Livro de Lisboa de 2010 ter sido prolongada, como tantas outras vezes já foi, com estas ou aquelas razões, ao longo dos seus oitenta anos.
Já não vale a pena discutir mais a feira deste ano, embora sejam muito diferentes as situações de quem ganhou e de quem perdeu. Mas o debate livreiro pode ser que sim, que possa prosseguir, com tempo, interrogações e interesse por abrir caminho. O comércio do livro é um caso de vergonha nacional muito grave e há muito tempo!...
«O debate aceso das ideias pode tropeçar», mas, por favor, não o deixem cair. Não queiram merecer a acusão de «únicos responsáveis pelo declínio» de um debate há tantos anos esperado!
«Únicos responsáveis»!... E ainda mais do que a ouvir custa a crer que se diga isto! «Únicos»? Há as histórias de um lado. E as do outro?
Mas não dá para tropeçar. Dá é para debater muito a fundo as responsabilidades de todos. Se for para debater bem longe dos níveis de discussão praticados na Escola!

M. Medeiros

sexta-feira, 21 de maio de 2010

LIVREIRO ENCALORADO

De Joaquim Gonçalves, da A das Artes de Sines e participante activo do Encontro Livreiro, recebemos um belísssimo texto que passa de imediato para o blogue e fica à disposição de mais leituras e comentários. Também pode ser lido no blogue da livraria.

Hoje está muito calor. Os vidros da montra e das portas estão cobertos de mosquitos irritantes. No muro ali em frente, do outro lado da rua, enfileiram-se milhares de minúsculas formigas.
O livreiro fecha as portas para não ser comido pelos mosquitos, decomposto pelas formigas, derretido pelo calor. Encosta as portas mas deixa a tabuleta «ABERTO». Olha para o computador e sente saudades do livro que deixou na página 384. Ali mesmo, onde Sophie e Hans se preparam para traduzir Bocage e Leopardi. O Viajante do Século. Que deleite!
Passam poucos minutos das três da tarde e já espreitou a Internet: As últimas da ópera bufa dos impostos; da Feira do Livro de Lisboa que, este ano, teima em não acabar; daa Feira do Livro do Porto que, este ano, arrecadou para si toda a polémica; espreitou, muito de mansinho, para ela não dar por isso, a conta no banco… Melhor dito: a “desconta”(!) do banco!
O livreiro não sai de trás do balcão e olha para O Último Leitor e Santa Maria do Circo que, numa das mesas em frente, o chamam. Lá perto, O Físico Prodigioso não consegue mezinhas para esticar o tempo. Tempo para ler o que é preciso. O que apetece.
Mais uma mirada à Internet, outra vez um saltinho aos blogues literários e salta a palavra “bibliodiversidade”. Sim, é o que oferecem as livrarias independentes. Mas independentes de quê? De quem? Se o livreiro fosse independente queria ser livro! Isso sim! Diria o que quisesse. Faria o que lhe desse na real gana… até que o queimassem… Ou guilhotinassem!
Mas o livreiro não é livro. É, apenas, livreiro. Aliás, talvez nem isso! Basta ir à Repartição de Finanças e procurar pela lista de profissões. Não há.
Na Argentina, chamou-nos para isso a atenção o blogue da revista Ler, foi fundada a primeira escola de livreiros do País. Na apresentação dizia o respectivo Secretário Estado da Cultura, Jorge Coscia: «La palabra "librero" adquirió un gran prestigio en la cultura argentina. Aparece en el paradigma primero como un hombre que ama y conoce los libros y está grabada a fuego en esta hermosa tradición de la actividad editorial».
Atrás do balcão o livreiro - português, de província, ainda por cima - dá uma espreitadela para lá da montra, para lá dos mosquitos – alguém mira os livros expostos enquanto dura um cigarro. O cigarro acaba-se e a beata vai para o chão. A senhora - é uma senhora - apaga-o com a ponta bicuda do sapato não vá incendiar as pedras da calçada. O livreiro baixa os braços do teclado e prepara-se para ir buscar a vassoura. Livreiro todo-o-terreno, como dizia a colega Lena ao queixar-se das limpezas, dos caixotes, das facturas, das prateleiras, de tanta coisa e da falta de tudo.
O calor não dá tréguas. Nada dá tréguas. Ninguém dá tréguas.
O tempo, principalmente, o tempo, o do relógio é que não dá tréguas mesmo. Na sua construção do passado, da história, da memória.

Da memória do que queríamos ter feito.

O livreiro livra-se, fecha a porta e vai bugiar.

Joaquim Gonçalves

quinta-feira, 20 de maio de 2010

«PROTESTO LIVREIRO»

Acabo de ler mais uma vez o «Protesto Livreiro» (Jaime Bulhosa, «livrariapodoslivros.blogspot.com», segunda-feira, Maio 17).
Diz muito e muito mais poderia ser dito pelo livreiro Jaime Bulhosa e por muitos outros.
Muitos outros? Se se deixassem de pequenices, era todos a uma só voz!
De qualquer modo, agora já tenho uma boa razão para suportar mais este abuso do prolongamento: fez aparecer este protesto livreiro.
Ainda bem, então, que os editores, para quem a sua feira não é um supermercado, mas um acontecimento cultural, se decidiram pelo prolongamento?
Até pode haver quem seja dessa opinião. Se nada há fazer, já tanto faz!
«Isto é que vai uma crise!»

M. Medeiros

sábado, 1 de maio de 2010

LIVRARIAS INDEPENDENTES: É URGENTE APOIÁ-LAS

A situação económica das livrarias independentes começa a dar nas vistas. E se há os que encolhem os ombros, os que fingem não ver, os que põem as mãos à cabeça, há também aqueles que, de forma criativa, procuram soluções para atenuar esse estado preocupante das coisas.
A editora francesa L'Autre Éditions, de Alfortville (Val-de-Marne), que reivindica práticas comerciais diferentes, apoiando as livrarias independentes (e não trabalhando de costas para elas, como acontece com a esmagadora maioria dos editores portugueses, mesmo os micro editores) lançou a operação «J'aime mon libraire», entre 1 de Maio e 15 de Setembro, actividade que reúne editora e livrarias numa mesma acção de promoção do livro e que inclui um concurso.
O cartaz promocional pede aos leitores: «Soutenez votre libraire indépendante de proximité», reforçando e dando visibilidade a um trinómio indispensável, editor, livreiro e leitor, trinómio esse que, conforme pode ler-se nos textos promocionais, permite ainda que a diversidade cultural exista.
Ao fazê-lo este editor está também a promover as suas edições. Estranho seria se o não fizesse. Mas não é bom que quando um ganha ganhem todos?
Passem pelo site da operação «J'aime mon libraire»
Talvez esta actividade sirva de inspiração a alguns de nós. Podem também consultar o sítio
(não conheço estudos semelhantes para o caso português), onde a situação das livrarias independentes está bastante em foco.
É preciso tomarmos uma atitude.
Não se esqueçam de que apenas uma livraria independente oferece uma verdadeira bibliodiversidade.
Este é um termo que começou a ser usado por editores independentes, mas que, num número crescente de países, está a entrar na esfera das livrarias independentes. Quem ainda não está familiarizado com ele pode informar-se em http://fr.wikipedia.org/wiki/Bibliodiversit%C3%A9
É tempo de agir.
Isto não pode ficar assim!
F.R.M.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

AINDA O DIA MUNDIAL DO LIVRO

«O Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor 2010 foi muito especial na Livraria Culsete.»

Ler texto de Fátima Ribeiro Medeiros (com reportagem fotográfica) em Chapéu e Bengala, onde se encontram alguns textos recentes do Livreiro Velho cuja leitura também recomendamos vivamente.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

DIA MUNDIAL DO LIVRO

«Entre o livro e a leitura estou eu, o livreiro. O escritor publica a escrita, o editor publica o livro, o livreiro "publica" a leitura.»

Resendes Ventura, Papel a Mais - Papéis de um livreiro com inéditos de escritores, Esfera do Caos, Lisboa, 2009, p. 21.

terça-feira, 20 de abril de 2010

LIVROS

Hoje sugerimos que dê uma saltada ao blogue da livraria A das Artes, em Sines desde 4 de Julho de 2003, e que ouça ISTO.

Obrigado Joaquim!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

ECOS DO ENCONTRO LIVREIRO (2)

«Isto não fica assim!

Isto não fica assim! é um blogue que transporta para a blogosfera os debates e ideias de «Encontro Livreiro», que decorre anualmente no último domingo de Março, na Livraria Culsete, em Setúbal.»

Blogtailors, 19 de Abril de 2010

DIA MUNDIAL DO LIVRO 2010

CONVITE
TERTÚLIA DE LEITURA

A Culsete convida-o a comemorar o Dia Mundial do Livro 2010 participando numa tertúlia de leitura que decorrerá no espaço da livraria (Av. 22 de Dezembro, 23 A-B, em Setúbal) no próximo dia 23 Abril, sexta-feira, às 21:30 h.

Serão lidos textos de
Alexandrina Pereira - António Gedeão - António Ramos Rosa - Arlindo Mota - Basarab Nicolescu - Camilo Castelo Branco - Edgar Morin - Fernando Bento Gomes - Fernando Gandra - Fernando Paulino - Italo Calvino - João Santiago - Joaquina Soares - John Steinbeck - Jorge de Sena - José Gomes Ferreira - José Luís Peixoto - Lima de Freitas - Luís de Sttau Monteiro - Luís Filipe Estrela - Lurdes Pólvora da Cruz - Manuel António Pina - Maria Clementina - Maria Ondina Braga - Nuno Fonseca - Rui Belo - Sándor Márai.

Leitores
Anita Vilar - Arlindo Mota - Fernando Bento Gomes - Fernando Gandra - Fernando Guerreiro - Fernando Paulino - Francisco Abreu - Joaquina Soares - Luís Filipe Estrela - Lurdes Pólvora da Cruz - Maria João Trindade - Maria José Rodrigues - Margarida Braga Neves - Margarida Costa - Nuno Fonseca - Nuno Ribeiro de Medeiros.

Venha até cá viver um serão de Abril com livros e traga outros amigos.


É este o teor do convite que a Livraria Culsete nos fez chegar.
Convidamos outras livrarias a enviarem-nos as suas iniciativas para divulgação neste blogue. Ficamos a aguardar.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

ECOS DO ENCONTRO LIVREIRO (1)

«ISTO NÃO FICA ASSIM

O blog do encontro livreiro em Setúbal, na mítica Culsete com o livreiro Manuel Medeiros já está disponível aqui. Desta vez não consegui mesmo ir, fico à espera do próximo.

No blog está disponível o maravilhoso texto que o Luís Guerra escreveu sobre o Hermínio Monteiro. Vale a pena ler e vale a pena falar do Hermínio.»

Estorias com livros (Rosa Azevedo), 13 de Abril de 2010

«o amigo Luís garante

Isto não fica assim!»

Poesia Incompleta (Changuito), 14 de Abril de 2010

«Isto não fica assim
Não, não é um desabafo meu. É o título do blog que nasceu do encontro livreiro promovido por Manuel Pereira Medeiros, livreiro da Culsete, em Setúbal. O encontro, que se quer anual e realizado no último domingo de Março, reuniu uma série de gente ligada aos livros e promete tornar-se num centro de onde partirão pensamentos e reflexões várias sobre a área do livro, partilhados por quem não olha para isto como um sector de negócio, mas antes como uma espécie de ofício, com tudo o que de ‘nobre’ o termo implica. O blog mora aqui e o próximo encontro já está agendado: 27 de Março de 2011.»

Cadeirão Voltaire (Sara Figueiredo Costa), 14 de Abril de 2010.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

«FALAR DO HERMÍNIO», um editor que veio da rua...

Luís Guerra, a quem telefonei logo após a sessão em que leu o seu «Texto sobre Hermínio Monteiro», teve a simpatia de mo enviar. Li-o e comoveu-me. É um documento, precioso a vários títulos. Sinto-me feliz por Luís Guerra aceder ao meu pedido de divulgação no ISTO NÃO FICA ASSIM! do Encontro Livreiro. Estou certo de que lhe ficarão gratos todos os que aqui lerem este precioso texto. E quantos comentários ele suscita!

Manuel Medeiros



Quero em primeiro lugar agradecer o convite do André Godinho para participar no seu filme sobre o Manuel Hermínio Monteiro e à Midas o amável convite para colaborar nesta iniciativa de lançamento. Não podia recusar porque se trata do Hermínio, uma pessoa que estará para sempre ligada à minha vida e ao rumo que ela tomou tinha eu vinte e poucos anos. Esta iniciativa, além do mais, realiza-se numa livraria e no Dia Mundial da Poesia e, portanto, num local e num dia especialmente bem escolhidos para falarmos do Hermínio, um amigo das livrarias e da poesia, por vezes tão maltratadas e desrespeitadas.

O Hermínio dizia repetidamente, referindo-se aos livros que então iam construindo o catálogo da Assírio & Alvim, que o importante era que falassem deles e os dessem a conhecer, mesmo que nem sempre de forma elogiosa. Preocupante era e é, penso eu também, o silêncio ou o barulho ensurdecedor que, anunciando a fugaz «banha da cobra», relega para o esquecimento o que de mais perene se vai fazendo.

Falar do Hermínio, mais do que pôr a nu as especificidades e múltiplas facetas de uma personalidade forte, como homem que era (como me custa ainda, passados quase dez anos, conjugar o verbo desta forma), daria para muita conversa e tem dado, felizmente, para muita conversa junto dos muitos amigos que deixou e também daqueles, mais jovens, com quem me tenho cruzado e me pedem muitas vezes informações sobre alguém de quem ouvem falar com tanto entusiasmo.

Falar do Hermínio é falar de um tempo em que a produção editorial em Portugal era mais escassa, em que os livros tinham uma permanência mais prolongada nas livrarias e em que a nossa alegria de ver chegar novos livros (uma festa sempre renovada) era tão grande como a alegria de ver partir, ao longo de anos, os livros do nosso fundo editorial. Esse fundo e as novidades que o passam a integrar e que ultrapassam a voracidade do primeiro impulso, continuo convencido disso, é que fazem verdadeiramente o catálogo de uma editora.

Falar do Hermínio é falar de um editor que veio da rua, do contacto directo com os livreiros e, através destes, com os leitores, reflectindo nas suas escolhas e atitudes o que aprendera enquanto vendedor de livros, uma actividade que muitos, erradamente, ainda hoje confundem com a de meros «anotadores» de pedidos ou, como agora se diz, «repositores de produto». Quero aqui recordar as visitas que comigo fez às livrarias, na passagem de testemunho, e a forma como os livreiros me receberam, sabendo eu que isso se devia muito ao caminho desbravado pelo Hermínio.

Falar do Hermínio é falar de um homem que, vindo do campo, trouxe para a cidade as vivências e os aromas de um espaço e de um tempo prenhe de um imaginário maravilhoso mas em acentuado processo de extinção. De um homem que nunca renegou as suas origens e afirmava «gosto de pensar que edito livros como quem trata de uma vinha», demonstrando uma sageza própria de camponês que sabe dar tempo ao tempo e está sempre sujeito às agruras e à imprevisibilidade do tempo.

Falar do Hermínio é falar de um líder natural que, com o seu entusiasmo, contagiava todos quantos com ele punham a mão na massa da edição e de outros projectos que abraçou.

Falar do Hermínio é falar de um dos pilares, com o Manuel Rosa (actual editor da Assírio & Alvim e já então o grande responsável pela sua imagem), de uma editora que, criada em 1972, se afirmava nos anos oitenta como uma editora de culto com projecção num futuro que continuamos a construir. Com o Hermínio a Assírio passou a ter um rosto.

Falar do Hermínio é falar de alguém que, acima de tudo, tinha um grande amor à vida e às coisas boas e belas que ela nos oferece e que, partindo embora prematuramente, continua presente na obra que nos legou, pelo que o continuo a encontrar diariamente nos vários espaços da Assírio & Alvim, desde o departamento editorial, às livrarias, ao armazém onde ele tanto gostava de descer para se inteirar do andamento das vendas e sentir o movimento dos livros para as livrarias e vice-versa, num repetido vaivém que vai levando os livros aos leitores.

Falar do Hermínio é falar de um editor que sempre viu na Assírio & Alvim, não apenas uma empresa (que foi limitada, cooperativa, novamente limitada e hoje sociedade anónima), mas sobretudo um projecto cultural mais vasto. É falar também de todos os que, no passado e no presente e sem nenhuma excepção, ajudaram a construir e consolidar um projecto editorial que assenta numa permanente escolha de rigor e exigência.

Falar do Hermínio é falar de Cesariny, Herberto, Pascoaes, Ruben A., Fernando Pessoa, Miguel Esteves Cardoso, Agostinho da Silva, João dos Santos, José Agostinho Baptista (que também participa neste filme e tão bem nos fala do lugar dos afectos na vida do Hermínio) e muitos, muitos outros autores cuja obra a Assírio & Alvim «aprendeu a amar e a tratar com rigor e dedicação». O catálogo que deixou e que continuamos a construir está aí e julgo que fala por si. Como diz Manuel António Pina, num belíssimo texto publicado em «Uma rosa para o Hermínio» (uma homenagem da APEL realizada no dia 3 de Junho de 2002), «(…) os livros que o Hermínio editou ao longo da vida desenham (vemo-lo agora nitidamente) o perfil do seu rosto intelectual e afectivo.»

Falar do Hermínio é falar de alguns projectos que muito acarinhou e marcam o seu legado: o Anuário de Poesia de autores não publicados (com um júri que foi sendo integrado, em anos diferentes e entre outros, por José Bento, Fiama Hasse Pais Brandão, José Agostinho Baptista, Fernando Luís Sampaio e Miguel Serras Pereira) que acolheu milhares de poemas e revelou alguns autores que ganharam posteriormente espaço próprio. Veja-se, por exemplo, o caso de Adília Lopes, que publicou nos anuários de 1984 e 1985 e de quem acabámos de lançar, em 2009, Dobra – poesia reunida; A Phala, sucessora de uma efémera publicação chamada Folha, publicação que no primeiro número se propunha ser «uma forma de expressão da Assírio & Alvim» e um «complemento do nosso trabalho cultural» e fechava a sua «Apresentação» desta forma: «(…) projectamos a Assírio & Alvim como espaço de qualidade e diversidade, de quem escolhe e edita livros à revelia dos códigos dominantes de comércio e lucro. Queremos dizer: não fazemos livros para cambiar por patacos. Editamos porque os livros nos dão prazer, e pretendemos colocar à disposição dos nossos leitores o que nos parece ser o melhor: autores, traduções e concepção gráfica.»; A Phala especial, Um Século de Poesia, que em 1988, envolvendo muitos colaboradores e tendo aos comandos o Hermínio, o José Bento, o Gil de Carvalho e o Fernando Pinto do Amaral e no design gráfico Manuel Rosa e Luís Miguel Castro, assinalou o centenário do nascimento de Fernando Pessoa, homenageando a poesia portuguesa como a mais alta expressão cultural desse século; e a última grande aventura, Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro.

Falar do Hermínio é falar de um editor que não se fechou no seu gabinete, antes se empenhou em movimentos cívicos, associativos e culturais, tendo ainda variada participação escrita em catálogos, jornais e revistas como a Ler, a Epicur, o JL, a K, O Independente, entre outros.

Falar do Hermínio é falar da inovação que, nos anos oitenta, se introduziu nos lançamentos de livros e de que são exemplo: pedir à Rodoviária Nacional um autocarro e enchê-lo de jornalistas, escritores e amigos para ir a Amarante, à casa de Teixeira de Pascoaes, fazer o lançamento de Os Poetas Lusíadas que contou com a leitura integral, na casa, de «Senhora da Noite» por Maria Barroso e pelo poeta Eugénio de Andrade; fazer o lançamento do primeiro volume das obras de Ruben A. no Monte dos Pensamentos, em Estremoz, com muitos amigos do Ruben A. e uma exposição sobre o escritor no museu da cidade (exposição que depois esteve no Porto e em Lisboa); fazer o lançamento d' O Livro de Bem Comer, de José Quitério, com um enorme repasto na quinta de D. Pipas, no Ribatejo; o lançamento de Cartas Portuguesas em Beja, com a exposição das pinturas de Ilda David' que fazem parte do livro, no castelo de Beja, e o lançamento do livro no convento de Mariana Alcoforado, com leitura das cartas pela actriz Inês Medeiros (o livro teve também um lançamento no Porto, com uma peça musical inédita de Paula Sousa, com a cantora Ana Deus e a actriz Ana Bustorf); a «Marcia de Poesia», que durante um mês inteiro levou à livraria da Assírio conversas sobre a poesia portuguesa do século XX, onde participaram dezenas de escritores e críticos, actores e músicos, muitos a despontar, como a Alexandra Lencastre, a Margarida Marinho, a Filipa Pais, outros já a consolidar a carreira, como o Pedro Aires Magalhães, ou os consagrados, como a Fernanda Alves (que leu «Poliptika de Maria Koplas», poema de Mário Cesariny, com banda sonora, que este executou ao piano) a Isabel de Castro, o Luís Miguel Cintra, etc.; ou as iniciativas por todo o país, com exposições, leituras, lançamentos, nos 25 anos da Assírio, numa enorme descentralização bem demonstrativa do quanto o Hermínio amava o país inteiro e tinha amigos de norte a sul; o projecto «Os Poetas» e muitas outras iniciativas que o tempo não nos permite continuar a enumerar.

Falar do Hermínio é falar de um editor que também experimentou o ensino, tendo deixado marcas pela forma como transmitia o seu amor pela História, em cujo imaginário invariavelmente buscava ensinamentos para a edição.

Falar do Hermínio é falar das colecções que ele via como divisões de uma casa feita de livros. Lembremos a colecção «Rei Lagarto» pela importância que teve, num tempo anterior à Internet, para a divulgação de biografias e de letras de cantores e de grupos que, cá e lá fora (e este lá fora era bem mais longínquo), marcavam a cena musical dos anos oitenta. Lembro, e há por aí ainda muita gente que me acompanha nesta recordação, os lançamentos noite fora em bares do Cais do Sodré resgatados ao lado mais obscuro da noite (o Tókyo, do senhor António, e o Shangri-lá, do senhor Martins, são disso exemplo), mas também no Porto, no Aniki Bóbó do amigo Becas. Lembremos também a «Gato Maltês», a colecção de livros de bolso da Assírio & Alvim que fará trinta anos em Janeiro do próximo ano.

Voltando atrás: conheci o Hermínio no início dos anos oitenta, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde estudámos, Filosofia eu, História ele. Conheci o Hermínio por causa do Sérgio Godinho e o Sérgio Godinho por causa do Hermínio. São ambos grandes culpados de ser quem sou hoje.
Sendo eu, por parte da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras, um dos responsáveis (com, entre outros, o António Costa que também participa no filme) pela organização de um espectáculo do Sérgio na Aula Magna, quem é que me apareceu a representá-lo? O Hermínio, o «Meu amigo Manuel» da canção que todos devem recordar. Conversámos, negociámos, e ao fim de demoradas negociações baixámos vinte contos ao cachet inicial (guardo o contrato que ambos assinámos, eu pela AEFLL, o Hermínio pelo Sérgio Godinho) e no dia 10 de Dezembro de 1981, como rezam os recortes de jornais da época «O cantor Sérgio Godinho provocou (…) uma das maiores enchentes de sempre da Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa (…) “Maré Alta” (…), (um dos temas do seu primeiro LP) foi executado “ao vivo” pela primeira vez, merecendo prolongados aplausos da assistência.» (Expresso, 12-XII-1981) e «Sérgio Godinho encheu a Aula Magna (…) uma lição com um brilhozinho nos olhos.» (…) «num show onde o risco se cruzou com o prazer, onde a festa colectiva se misturou com um silêncio comovido» (Se7e, 16-XII-1981).
Numa entrevista ao Letra – Jornal da AEFLL, com a presença e participação do Hermínio (que a certa altura interrompe e chama a atenção para a existência de dois tipos de público distintos, na cidade e no campo), o cantor afirmava: «Gosto do palco. A partir de certa altura senti necessidade, eu e muitos outros, de melhorar um bocado a apresentação das nossas canções. A interpretação pode ganhar com a espontaneidade, com a vivacidade, com o contacto com o público. (…) O palco é, muitas vezes, a finalidade da canção, porque a renova permanentemente».
Alonguei-me um pouco neste aspecto por duas razões: primeiro, porque daqui nasce a minha relação com o Hermínio; segundo, porque este espectáculo marca o início de um tempo em que os chamados «cantores de intervenção» começaram a tomar consciência, depois de um tempo em que imperava o voluntarismo, de que deveriam começar a ter uma exigência mais profissional.

Passa o tempo e um dia recebo um telefonema do Hermínio (que já tinha deixado vários recados nos sítios por onde eu andava. Lembremo-nos que ainda não havia telemóveis. O fax chegou já eu estava na Assírio) a perguntar-me se queria ir trabalhar para a Assírio. Disse-lhe que ia passar o mês de Agosto em Paris, onde residia a Maria de Lurdes, namorada recente e minha mulher de então para cá, mas que estava interessado sim senhor. E diz o Hermínio: «Vai lá de férias descansado e, quando regressares, aparece». E eu disse que sim! Sem perguntar o que ia fazer e quanto ia ganhar, feliz pela aventura de poder trabalhar numa editora, eu que já fora há muito tocado pelo vírus do livro e da leitura. E aqui estou, depois de muitas, muitas voltas, nossas e da vida.

Perceberão agora melhor a razão pela qual não podia recusar o convite do André Godinho (estes Godinho perseguem-me) para lhe falar do Hermínio. Gravámos a conversa na livraria da Assírio & Alvim, num domingo à tarde, tendo o António Costa viajado propositadamente do Porto, onde reside e trabalha. As coisas que o Hermínio nos obriga a fazer!

Obrigado André por nos falares do Hermínio e por me teres concedido o privilégio de falar sobre alguém que marcou para sempre o meu percurso pessoal e profissional, em suma a minha vida.

Obrigado a todos pela paciência de me ouvirem dizer pobremente algumas palavras sobre um homem acerca do qual nunca conseguiremos expressar cabalmente o quão importante foi no mundo da edição e do livro em Portugal, mas também o quão importante foi para os amigos que tão cedo se viram privados do seu entusiástico, afectuoso e contagiante convívio.

O essencial da obra do Hermínio, os livros que editou e estão vivos no catálogo da Assírio & Alvim, bem como o seu exemplo, continuam hoje na luta diária que mantemos para honrar uma chancela editorial que se soube impor ao respeito de muitos e que continua a ser acarinhada pelos seus leitores, apesar das dificuldades, das tormentas e das «crises» que ciclicamente apoquentam a nossa economia e o mundo do livro.

Espalhem a notícia e continuem a falar do Hermínio.

Luís Guerra
Lisboa, 21 de Março de 2010
[Texto lido na apresentação do dvd MANUEL HERMÍNIO MONTEIRO -MHM, de André Godinho, no auditório da Fnac Chiado]

domingo, 11 de abril de 2010

TRATA-DO-ENTENDIMENTO (1)

A entender-se é que «a gente» conversa!
Subverter o ditado da sabedoria popular!? Um atrevimento, talvez. E, no entanto, talvez sem intenção de vir com uma gracinha de gosto duvidoso.
«A conversar é que a gente se entende»: é muito sábio, respeitabilíssimo. Mas...
Tanta conversa! Mesmo tanta conversa! Nem um surdo deixará de concordar com esta exclamação.
E entendimento? Quanto entendimento? Qual entendimento?
Aqui e agora não se está sequer a olhar para o vasto mundo. Só sobre o mundo do livro e em atitude positiva:
o «Encontro Livreiro» parte de um convite às «gentes do livro» para uma tarde de conversa. Portanto foi criado na crença de que «a conversar é que a gente se entende».
O que é, é que uma conversa de que resulte o desejado e produtivo entendimento, exige prévios entendimentos. De outro modo alguém comentará: «isso é conversa!». Pior ainda, muitos irão virar as costas, dizendo com os seus botões: «isto é só conversa!».
«Gente do livro» a entender-se a si mesma e a entender-se entre si! E a entender muita coisa!
Porque, aí, como resultado da conversa de quem «se entende» e «entende disto», é inevitável: ISTO NÃO FICA ASSIM!

Manuel Medeiros

sábado, 10 de abril de 2010

VENHA DAÍ. ISTO NÃO FICA ASSIM!

Para além dos elementos que integram o núcleo fundador deste
ENCONTRO LIVREIRO,
gostaríamos que este espaço aberto ao diálogo e à troca de ideias fosse crescendo e envolvendo cada vez mais pessoas e instituições ligadas ao
MUNDO DO LIVRO E DA LEITURA.
Para aderir basta enviar um mail para encontro.livreiro@gmail.com, manifestando essa mesma vontade de participar e de divulgar esta nova plataforma.
Iremos dando aqui notícia das adesões que nos forem chegando.
VENHA DAÍ. ISTO NÃO FICA ASSIM!

quinta-feira, 1 de abril de 2010

NO «CADEIRÃO VOLTAIRE»

A Sara Figueiredo Costa, que queria estar presente mas deixou passar o dia 28 de Março sem se aperceber, também noticiou o Encontro Livreiro AQUI.
E já deixou a promessa de não faltar no próximo ano. Toma nota Sara: 27 de Março de 2011.
Obrigado.

quarta-feira, 31 de março de 2010

«(...) ANTES QUE TODOS OS LIVREIROS SEJAM SUBSTITUÍDOS POR MÁQUINAS DE VENDING»

© rabiscos vieira
Não podendo estar fisicamente presente, como gostaria, Pedro Vieira noticiou a realização do Encontro Livreiro com um «rabisco» do livreiro Manuel Medeiros (criado originalmente para um artigo de Francisco Belard na revista LER) e o seguinte texto:
«esta tarde decorre o primeiro convívio livreiro na livraria Culsete, em setúbal, gizado pelo mítico manuel medeiros. aberto a livreiros, está claro, e a outros amantes de livros sem sentimentos de culpa. as palavras do manuel podem ser acompanhadas na internet no papel a mais e no chapéu e bengala. e saboreiem-nas, antes que todos os livreiros sejam substituídos por máquinas de vending.»
Obrigado Pedro.

segunda-feira, 29 de março de 2010

NÚCLEO FUNDADOR DO «ENCONTRO LIVREIRO»


Estiveram presentes e constituem o núcleo fundador deste Encontro Livreiro, conforme consta do Livro de Honra da Culsete:

CONVÍVIO LIVREIRO EM SETÚBAL
- ÚLTIMO DOMINGO DE MARÇO DE 2010 -
PELA RESPEITABILIDADE E CONTINUIDADE DO SECTOR LIVREIRO E DO SEU TRABALHO
- UM MANIFESTO CONTRA O FATALISMO! -

Manuel Pereira Medeiros (livreiro, Culsete, Setúbal), Luís Guerra (Assírio & Alvim), Fernando Bento Gomes (escritor), Cristina Rodriguez (tradutora), Artur Guerra (tradutor e professor bibliotecário), Gonçalo Mira (Quid Novi e blogger de «Orgia Literária»), Nuno Fonseca (escritor, crítico e blogger de «Orgia Literária»), Joaquim Gonçalves (livreiro, A das Artes, Sines), Dina Silva (Professora de Português), Adelino Abrantes (Penguin Books), José Augusto Soares Pereira (Livros do Brasil), António Almeida (ex-Editorial Verbo), Fátima Ribeiro de Medeiros (investigadora literária e professora), Hélia Filipa da Cruz Sampaio (leitora), Nuno Miguel Ribeiro de Medeiros (sociólogo), João Manuel Rodriguez Guerra (estudante), José Teófilo Duarte (designer gráfico), Francisco Abreu (editor, Esfera do Caos Editores), José Gonçalves (distribuidora HT - ausente por motivos de saúde, participou na preparação e divulgação).

Nota: compromissos diversos impediram a presença de, entre outros: Francisco Belard (jornalista/revista LER), Carlos Vaz Marques (jornalista/TSF), Damião Medeiros (blogger de «Papel a Mais»), Luís Filipe Cristóvão (Livrododia, Torres Vedras), Jaime Bulhosa (Pó dos Livros, Lisboa), Pedro Vieira (Irmão Lúcia / Almedina/Lisboa), Alexandra Vieira (Arquivo, Leiria), Helena Girão Santos (Fonte de Letras, Montemor-o-Novo), Sérgio Lavos (blogger de «Auto-retrato», Bulhosa/Lisboa), Sara Figueiredo Costa (blogger de «Cadeirão Voltaire»).
Fica, desde já, o convite a todos para o ENCONTRO anual, a realizar no dia 27 de Março de 2011, e a sugestão de se realizarem outros encontros em qualquer uma destas livrarias [um por trimestre, por exemplo, e para analisar um tema específico] e/ou em outras que se venham a associar ao ENCONTRO LIVREIRO.

UM RESUMO DO I ENCONTRO LIVREIRO

Manuel Pereira Medeiros, o livreiro velho, não quer que os seus sonhos morram. Para isso há que os lançar ao mundo. No último domingo do mês de Março de 2010, Manuel Medeiros encontrou a data ideal para aquilo que começou por ser pensado como um convívio livreiro e que acabou por se transformar antes em encontro. A diferença não é tão subtil quanto possa parecer. Convívio houve, mas houve muito mais do que isso neste encontro que, espera-se, seja o primeiro de muitos. A ideia era simples: reunir, para uma conversa, algumas pessoas das várias actividades ligadas ao livro. E houve escritores, editores, comerciais, tradutores, críticos, professores, investigadores, bibliotecários, livreiros...

O local de encontro não podia deixar de ser a Livraria Culsete, a casa de Manuel Medeiros em Setúbal. E a afluência, sem ser arrebatadora, foi mais do que suficiente e a prova disso é o vastíssimo leque de “profissões do livro” representadas.

Este primeiro encontro foi, contudo, e como bem sublinhou o anfitrião, uma preparação para a conversa que se queria ter. Discutiu-se muito, concordou-se e discordou-se, mas quando a hora de partir chegou a sensação era a de que se tinham levantado as questões para a discussão a sério. A que viria – e virá – a seguir. Porque «isto não fica assim!»

Havendo gente de tantas actividades diferentes, o primeiro problema identificado foi o de que trabalham todos de costas voltadas uns para os outros. Hoje em dia edita-se muito mais livros com tiragens mais reduzidas e há, consequentemente, menos capacidade de exposição para cada título. Há uma rotatividade enorme de livros nas livrarias, o que faz com que os leitores acabem por não ter capacidade para os ver a todos. Os livros ficam uns meses nas livrarias e são logo devolvidos, o que faz com que as vendas, segundo um dos presentes, não representem um lucro para o editor, porque este vê a factura paga com os livros que anteriormente enviara. Entra-se assim num ciclo vicioso que acaba por ser prejudicial para todos.

Os livreiros – e aqui falamos dos poucos livreiros a sério que existem – sofrem a sufocante concorrência que vem de várias direcções: hipermercados, feiras do livro incessantes, grandes cadeias de livrarias, etc. Muitos destes, se não todos, arranjando forma de contornar a lei do preço fixo, deixando de mãos atadas os livreiros.

Assim, a primeira grande questão que surge é: como regularizar esta situação e como colocar livrarias a trabalhar em conjunto – e não contra – com editoras. Vieram à baila exemplos de Espanha, de França, de Inglaterra. Devemos ou não olhar para estes modelos? A nossa realidade, o nosso mercado, permite a comparação?

A segunda grande questão levantada prende-se com os índices de leitura. Em Portugal lê-se pouco e, muitas vezes, lê-se mal. O problema vem de trás, de uma iliteracia tardia e que ainda hoje nos envergonha. Então, o que se pode fazer para combater isto, para pôr as pessoas a ler, para ensinar as pessoas a ler (bem)?

O governo lançou o Plano Nacional de Leitura, mas isso chega? Está a ser bem feito? Qual o papel que o Plano atribui às livrarias? Há alguns resultados visíveis, mas são muito insuficientes. É preciso motivar as crianças para a leitura desde o berço, mas, mais do que incentivá-las, é preciso formar os pais, que muitas vezes – por mais revoltante que isso seja - são um obstáculo para a formação dos filhos enquanto leitores e, consequentemente, enquanto pessoas mais cultas, mais inteligentes, melhores. Porque todos acreditamos que ler (bem) é fundamental para a formação do indivíduo.

E para que haja muitos e bons leitores é preciso que haja bons escritores, bons editores, bons livreiros. E que estes trabalhem em conjunto. Assim voltamos à primeira discussão e percebemos que está tudo ligado.

É preciso pôr as pessoas que não lêem a ler. É preciso pôr as pessoas que lêem a ler melhor. É preciso pôr as pessoas que lêem bem a discutir. É preciso que todos, em conjunto, pensem em estratégias de promoção da leitura eficazes e duradouras. E é para isso que deverão servir estes encontros. Para que aqui os “especialistas” se encontrem, troquem ideias, saiam daqui pessoas mais intervenientes, capazes de uma mediação e de uma acção em prol do aumento dos índices de leitura mais eficaz, isto é agentes mais capazes de ajudar na mudança que todos precisamos de operar.

Foi ainda aflorada a questão dos tradutores, muitas vezes pouco respeitados e mal pagos, sendo os verdadeiros profissionais frequentemente preteridos e substituídos por outros de duvidosa formação, que aceitam remunerações incompatíveis com o trabalho do técnico de tradução competente, o que prejudica a qualidade das obras traduzidas e vai interferir com a recepção das mesmas, afectando a sua procura.

Não podemos ficar parados a ver o que acontece. Não podemos esperar que outros o façam. Temos todos de nos mexer. De nos unir. De chamar mais um ou dois.

Isto não fica assim!

Gonçalo Mira

UMA FRUTUOSA TROCA DE IMPRESSÕES







O TEXTO QUE DÁ O PONTAPÉ DE SAÍDA

Em busca do maravilhoso país da leitura, aportou hoje a Setúbal o «Encontro Livreiro», dando assim cumprimento ao sonho de um velho livreiro, que sempre desejou ver os profissionais do livro «viajar num mesmo barco para o país da leitura».

A bordo, e sob a hospitaleira recepção do livreiro Manuel Medeiros, o também escritor Resendes Ventura, viajam todos quantos puderam e quiseram corresponder ao seu apelo para que com ele passassem a tarde deste último domingo de Março, conversando, convivendo, entre livros e saboreando um moscatel da região, com o seguinte traje obrigatório, segundo reza o convite: «interesse em participar e boa disposição!»

Desejamos que a este porto acorram editores, tradutores, livreiros, vendedores, distribuidores, bibliotecários, professores, blogues, comunicação social, mas também leitores que queiram conviver, conhecer e trocar ideias com aqueles que fazem do livro a sua actividade diária, alguns a actividade e paixão de uma vida inteira.

Do autor ao leitor, muitas são as mentes e as mãos que fazem do livro uma das mais extraordinárias criações humanas e transformam cada livro editado num renovado acontecimento.

É ambição de quem deu os primeiros passos deste empreendimento, pôr todas estas pessoas, comummente vistas como individualistas e sempre à procura de alijar responsabilidades e «sacudir a água do capote», a conversar sobre as formas de se darem ao respeito e, desse modo, dignificarem as suas profissões e o livro.

Essencial ao desenvolvimento cultural do país e ao progresso, o livro, no formato actual ou em quaisquer outros que o futuro nos ofereça, exige de nós uma atitude mais responsável e mais interventiva. Não nos podemos quedar pela crítica destrutiva e lamurienta.

A situação actual do livro, das livrarias, da edição, da distribuição, das bibliotecas, das escolas, da leitura, merece a reflexão atenta de todos e a adopção de medidas e sobretudo de atitudes que contrariem a opinião acrítica e a formatação de um gosto dominante que prima pelo efémero, pelo fugaz e pelo superficial.

Não se pretende encontrar, e muito menos crucificar, «culpados» dos males que atormentam o mundo do livro e da leitura. Se os há somos todos nós, quando não somos profissionais competentes na actividade que desenvolvemos. E uma actividade que visa, em última instância, a leitura, mais exigente se torna com os seus profissionais. Choca, por exemplo, ver profissionais do livro que fogem da leitura como o diabo da cruz!

Há que mudar atitudes e procedimentos e é já com um novo espírito que este Encontro Livreiro deve acontecer: reunindo em vez de dividir; ouvindo em vez de impor; convivendo em vez de continuar de costas voltadas; metendo as mãos na massa em vez de estar à espera que outros resolvam o que a nós cabe resolver; tomando consciência de que todos somos poucos para a árdua tarefa de fazer da leitura um desígnio nacional crucial para o progresso e para a nossa identidade e maioridade cultural.

O país futuro que ambicionamos e que queremos ajudar a construir assenta o seu progresso no desenvolvimento cultural, na leitura e numa verdadeira articulação entre política cultural e educação.

Os participantes no I Encontro Livreiro, constituindo-se como fundadores e impulsionadores destes Encontros, estabelecem a sua realização anual, fixando que o II Encontro Livreiro terá lugar, no mesmo local, no dia 27 de Março de 2011, mantendo o seu carácter aberto.

Será criado um blogue, com a designação de «Encontro Livreiro», onde, para além da publicação, entre encontros, de notícias e textos relevantes relacionados com o Livro em Portugal, se divulgarão textos, propostas e outros documentos que surjam durante a realização de cada Encontro. Em cada sessão anual será designado um grupo de três elementos que se responsabilizará, no ano seguinte, pela manutenção do blogue.


Luís Guerra
Setúbal, Livraria Culsete, 28 de Março de 2010

domingo, 28 de março de 2010

«TEM DE SER UM BRINDE! TODOS EM CONJUNTO!»




COMEÇAM A CHEGAR OS PARTICIPANTES






À ESPERA

                                       I Encontro Livreiro, Culsete - Setúbal, 28-III-2010 (Foto de Luís Guerra)

PREPARANDO O LIVRO DE HONRA PARA AS ASSINATURAS


CONVITE

O convite parte, com muito gosto, do livreiro da Livraria Culsete. Os amigos do ramo livreiro e todos os que se consideram como «gentes do livro» são convidados e convidam-se uns aos outros, para um convívio na tarde do domingo, dia 28 deste mês de Março de 2010, com o único objectivo de nos encontrarmos e conversarmos descontraidamente, saboreando um Moscatel de Setúbal.
O velho livreiro crê que passarmos juntos uma tarde numa simples livraria conversando sobre o que mais nos interessar e agradar é uma forma simpática de prestigiarmos o nosso trabalho e afirmarmos a sua importância no mundo do livro e da leitura.
*Traje obrigatório: interesse em participar e boa disposição!

Setúbal, 4 de Março de 2010

Manuel Pereira Medeiros